Zefinha – O diário do Paris.
Edifício de 12 andares. Quatro apartamentos por andar. Quarenta e oito apartamentos em que vivem famílias com dois filhos, casais jovens que ainda não pensaram em constituir família, pois não é prioridade; solteiros que moram sozinho, estudantes de outra cidade que dividem o apartamento, dentre outros tipos que compõem este império de figuras diversificadas que sempre se cruzam, em alguns momentos esbanjando simpatia, que pode ser sincera ou não, em outros demonstrando frieza. Eis que surge dona Zefinha, morada do 1003 no edifício Paris há quatorze anos, ninguém a vê trabalhando, talvez seja aposentada ou viúva, vá saber. A única atividade dela reconhecida por todos é o mexerico. A aparência da dona não é das melhores, sugere ter cinqüenta anos talvez um pouco mais, um visual descuidado, como se não dedicasse tempo para se arrumar na ânsia de chegar ao pátio do edifício, local ideal para o tráfego de informações. É lá o local que ela coloca os assuntos em dia com empregadas e mães das crianças que brincam ao redor. Sempre tem uma novidade para os condôminos que possam ter a sorte (ou azar) de cruzarem para conversar com ela. Doutor Ricardo comprou um carro novo, teve um aumento no emprego. A filha da Neide do 703 só chega tarde das festas e está sempre trocando de namorado. A Joana está sempre aos berros com o marido. Notícias de todos os tipos saem da boca deste tablóide ambulante que circula diariamente pelo edifício Paris. O tempo passa as mães chamam as crianças, a conversa termina, e dona Zefinha segue rumo ao seu apartamento. Fim de mais um dia de fofoca? Seria bom se fosse. Na porta para o elevador, Zefinha cruza com Pedro um estudante de 19 anos tímido, discreto cuja personalidade introvertida não lhe permite que dedique muito tempo a longas conversas com desconhecidos, desta forma ele a dirige um introspectivo ‘ boa noite ‘ mas para a Dona do 1103 a discrição dele pouco importa, ela quer conversar. Retribui o ‘boa noite’ ao jovem de forma infinitamente efusiva e logicamente puxa assunto, sempre visando abstrair do rapaz o maior número de conhecimento possível. Por ironia e crueldade do destino Pedro mora no 12º andar, um abaixo da velha. Os 45 segundos que levam em média para chegar ao último andar do edifício Paris aumentam de forma considerável. As perguntas são inúmeras. E os estudos? E a namorada? E os seus pais como estão? Viajaram no feriado passado? Já sabe onde vão passar as férias? Ufa! Finalmente o elevador chega ao destino da Zefinha e ela se despede e vai para casa em busca de descanso, devido a um dia tão cheio.
O dia amanhece e a velha mexeriqueira não pode ficar muito tempo em casa, com o habitual desleixo desce em direção ao pátio e encontra o zelador Almir. No momento da conversa, que em se tratando de Zefinha pode ser entendida como investigação da vida alheia, Pedro passa próximo por ela sem dá ao mesmo um ‘bom dia’. A indiferença é uma ofensa de proporções monumentais para uma fofoqueira. E como não obteve informações do monossilábico estudante, resta apenas uma alternativa. Denegri-lo. E assim o jovem tímido, discreto, introspectivo se transforma num garoto frio, e mal educado.
A semana termina. Começa o fim de semana pelo qual as coisas costumam mudar. A circulação de moradores no edifício diminui, alguns viajam, outros passam o período na casa de algum parente na própria cidade. O fato gera uma solidão descomunal para Zefinha que fica com poucas fontes de informação. As novidades tornam-se escassas, devido ao desprezível número de almas vivas circulando o edifício. Escassas também ficam as chances de a linguaruda despejar as informações obtidas durante a semana, ou mesmo na semana passada. Além da presença de moradores circulando o pátio ser quase nula, o número de empregados é reduzido. Todavia ela não baixa a guarda, e com todos os obstáculos existentes nesse período negro para uma fofoqueira, chamado fim de semana, ela segue rumo não ao pátio, mas à portaria, onde encontra Seu Almir, porteiro do edifício desde os primórdios da sua construção. Ele é um profissional ético e não sai por ai comentando sobre os moradores, mas com a habilidade peculiar, Zefinha consegue absorver do mesmo novidades quentes. Com um pouco mais de uma hora de conversa, o tablóide de saias já sabe da reconciliação da Joana com o marido e da visita de ambos à Angra dos Reis, do passeio de Pedro, o garoto mal educado que a velha tanto odeia, com a turma da faculdade para o litoral, e da chegada de novos condôminos para o edifício Paris, novos candidatos a serem notícias no famoso diário da Dona Zefinha. Ela ainda não sabe o nome deles nem de onde vieram, mas esse tipo de informação é muito fácil de se obter para uma figura com demasiada experiência. Entre conversas com o porteiro, e alguns passeios pelo condomínio semi-deserto, o fim de semana termina. Para a alegria de dona Zefinha os moradores retornam de seus respectivos passeios. A velha tem a oportunidade única para fazer o que mais sabe. Transmitir informações.
Nesse império de figuras opostas chamado condomínio, a velha mexeriqueira aparenta ser um mera aliada em conversas descompromissadas. Mas com sua língua afiada, afeta todos.
· Texto referente a disciplina ‘ Português III ‘ do curso de Jornalismo
· Tema a ser analisado: Descrição de tipo
O que acharam?! kkk